Eu não parei de escrever... só um descanso...
Éffer Peixoto
Isótopos Radioativos
Entre os achados e os feridos
Entre os mortos e os perdidos
O cheiro dos crimes que cometeu
Pálido e indeciso
Mérito ao improviso
Quando tudo deveria ser só seu
Estamos expostos a pequenas doses
de radiação ionizante
constantemente...
e nem morremos por isso
quando os isótopos radioativos
cairem do céu
quero estar contigo
e exercer meu papel
de homem
de abrigo
de guarda-chuva fiel
que não se desmonta ao primeiro sopro truculento
mesmo que tenda a se abrir
como se fosse de papel.
E é quando esbarro comigo mesmo
Que sinto não ser assim tão mal
Que o cheiro dos crimes cometidos
exalam o que passou
e que tudo foi apenas um sinal.
E os isótopos radioativos caindo
são só um delírio coletivo
sabemos muito bem o que realmente faz mal...
Éffer Peixoto
O Príncipe e a Princesa
Como se tudo começasse
Como
Arrepio ao sopro no ouvido
Prazer nada inibido
E um sorriso que se dá pelo sorriso
O reflexo que apaixona
O espelho que não é suficiente
Para esse sentimento que tanto emociona
O espelho é pequeno
É pequena a cama
O tempo é pouco
E o espaço engana.
E tudo começa realmente
Mas
Não antes de rompermos os lacres do mundo
E construirmos o nosso castelo
Com muralha e fosso profundo
Crocodilos inofensivos
Um lugar onde tudo há de ser belo
E há de ser
Será lindo nosso castelo
Pombos e marsupiais: serão bem-vindos
Lagartixas e gatos: temidos
E o povo amará o príncipe e a princesa
E o banquete será para todos
Para o povo também
Não só para a realeza
E o amor será eterno
O príncipe e a princesa
E ninguém mais se lembrará daquela palavra
"Como é mesmo o nome?"
"Tristeza?"
E tudo começa realmente em você...
A fé que quase é
Eu vou sentindo:
É
Achando que o mundo é
Do jeito que você pensa que é...
Eu vou fugindo:
Ré
Achando que voltar é bem mais que ré
Do jeito que você pensa que é...
Eu vou surgindo:
Fé
Ir aos meus santos com minha própria fé
Do jeito que você pensa que é...
E eu vou seguindo:
Pé
Que pra sentir o mundo tem que ser a pé
Do jeito que você pensa que é...
Jefferson Peixoto
Hialurgia Barata
Só há dor pelo que poderia ter sido
Não há dor pelo que deixou de ser
Nunca houve verdade
Apenas amparo e necessidade
Inércia e vaidade.
E eu busco na minha memória
Algum momento bom
E eles não vêm
E eu busco o que de bom ficou na nossa história
Algum cheiro
Algum som
E nada vêm
E nos perdemos falando em amor...
Passou antes que pudéssemos acenar
Passou tão rápido
Não teve tempo nem para um cafezinho
Só há dor pelo que poderia ter sido
Não há dor pelo que deixou de ser
E o que foi... foi vidro
Foi vidro...
Lorde Rodalupinam
Desmembramento da vida
Mutilação dos sonhos
Lesão no músculo da sinceridade
Hemorragia na alma
E se vai pela boca o sangue
Diluído em mentiras e poucas verdades...
E surgem os calos da inocência
O derrame da aparência
E o câncer da vaidade
O estupor do cotidiano
O estrondo
O sopro do esturvinhado demônio
Quando houve a decapitação da essência
E o corpo do lorde tombou...
Os malditos cães o fizeram banquete
Moscas azucrinavam o silêncio do óbito
E ao longe uma bela mulher surgiu
E ao longe o mundo inteiro se abriu
E suas vísceras foram se recompondo
Foi-se aquele odor estranho
E todas as feridas voltavam a ser pele macia
A alma cicatrizava
O sangue deixava de ser tão impuro
E os sonhos iam ressurgindo
A vida abandonando o breu...
Ergueu-se imune aos olhares invejosos
Desfez-se dos trapos da imundície
E disse:
“nunca mais tentarei controlar vossas mentes
Nova vida para meu povo!
Livre! Recomecem! Tentem de novo!”
NUNCA MAIS CORAÇÃO
E lhe tiraram os braços
Continuou lutando
E lhe tiraram as pernas
Continuou esbravejando
E lhe tiraram a língua
Continuou guardando segredos
E lhe tiraram o coração
E lhe tiraram o sono
Restou só cérebro ao acordar
E só frieza ao resto do dia
E só beleza em seu mundo estranho
Onde voltara a ter braços
Aprendendo a pintar
Onde voltara a ter pernas
Aprendendo a dançar
Onde voltara a ter língua
Aprendendo a cantar
Onde não quis mais voltar a ter coração...
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